A divulgação da lista dos 26 convocados pelo técnico Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026, realizada no emblemático Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, trouxe consigo o ingrediente que faltava para incendiar o debate público: o retorno de Neymar. Sem vestir a camisa amarelinha desde sua grave lesão em outubro de 2023, e atuando hoje no Santos, o craque de 34 anos parecia uma carta fora do baralho para a comissão técnica italiana, que até então nunca o havia chamado.
Para além das quatro linhas, contudo, o desfecho dessa novela esportiva não foi mero fruto do acaso ou do romantismo do futebol. O retorno de Neymar à Seleção Brasileira configura um case perfeito e refinado de advocacy e defesa de interesses no âmbito das Relações Institucionais e Governamentais (RIG). Trata-se da demonstração prática de como a gestão estratégica de múltiplos stakeholders, a negociação direta e a construção de narrativas de valor podem moldar decisões de alto impacto institucional.
Gestão de múltiplos stakeholders
No jargão corporativo, advocacy é o processo deliberado de influenciar tomadores de decisão em favor de uma causa ou interesse legítimo. O cenário que antecedeu o anúncio do dia 18 de maio era de forte assimetria: de um lado, um técnico pragmático e focado na renovação tática; de outro, desfalques de peso de última hora por lesão — como Rodrygo e Estêvão — que abriram um vácuo técnico e de liderança no ataque brasileiro.
Foi nesse hiato que a engrenagem de RIG operou. O “ecossistema Neymar” — composto por seu staff, patrocinadores de peso com contratos bilionários atrelados ao Mundial e a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) — identificou a janela de oportunidade regulatória e política perfeita. A defesa do interesse (a convocação) não se baseou em pressões vazias ou apelos emocionais da torcida, mas sim em um alinhamento estrito de expectativas e dados.
Negociação de alto nível
As matérias veiculadas pela imprensa esportiva revelaram o divisor de águas desse processo: uma reunião franca e decisiva entre Neymar e Carlo Ancelotti. No ambiente corporativo e governamental, esse encontro equivale às reuniões de “portas fechadas” com tomadores de decisão (os policymakers).
Qual foi a moeda de troca da negociação? Fontes de bastidores apontam que Neymar garantiu sua vaga ao aceitar abdicar de exigências históricas, concordando em não ser o capitão e aceitando, inclusive, a condição de não ser titular absoluto.
Sob a ótica de relações institucionais e governamentais, o jogador e seu staff demonstraram uma leitura madura de gerenciamento de crises e concessões. Entendeu-se que, para atingir o objetivo macro (estar na quarta Copa e buscar o recorde de Pelé vestindo a camisa 10), o player precisaria ceder nos microinteresses. Houve uma readequação do “produto” Neymar para que ele se encaixasse perfeitamente nas exigências de governança do treinador.
Mitigação de riscos e geração de valor reputacional
Nenhum processo de advocacy prospera se o decisor perceber que o ônus político é maior que o bônus. Ancelotti, ao estender o contrato com a CBF, precisava mitigar o risco de desestabilizar um vestiário jovem liderado por Vinicius Júnior.
O êxito da escalação de Neymar reside no fato de que sua presença foi empacotada não como um privilégio, mas como um ativo de gerenciamento de riscos. Sem Rodrygo, a Seleção perdia estofo cascudo. Neymar foi reposicionado institucionalmente como o mentor experiente, o escudo midiático que absorveria a imensa pressão do hexacampeonato, blindando os atletas mais jovens (como Endrick e Rayan).
Ademais, o peso do lobby econômico é inegável. A Copa de 2026, sediada na América do Norte, é o maior produto comercial da história da FIFA e dos patrocinadores da CBF. Demonstrar viabilidade técnica somada ao gigantesco retorno de engajamento global foi o argumento de valor definitivo apresentado na mesa de negociações.
Lições do “Hexa” do advocacy
A lição que as Relações Institucionais e Governamentais extraem do dia 18 de maio de 2026 é clara: defender interesses legítimos exige timing, leitura de cenário e pragmatismo.
O êxito da escalação de Neymar para o Mundial prova que, mesmo quando a opinião pública está dividida e o cenário parece desfavorável, uma estratégia de advocacy baseada em concessões inteligentes, pontes diretas de diálogo com o decisor e a correta leitura das fraquezas do ambiente (as lesões no elenco) é capaz de reverter prognósticos.
Neymar jogará sua quarta Copa do Mundo. Ancelotti garantiu paz e uma peça técnica diferenciada sob suas próprias condições de governança. E os profissionais de RIG ganharam um exemplo prático e fascinante de como transformar um ativo altamente controverso em uma solução consensual indispensável.
Agora, com o advocacy vencido e a estratégia de relações institucionais e governamentais consolidada, a bola deixa a mesa de negociações e volta para o gramado: resta aguardar se essa engenharia de bastidores será o xeque-mate que finalmente trará o hexa para casa.
Por: Daniel Duarte Lledó (Diretor de Relações e Institucionais e Governamentais & Políticas Públicas da DataPolicy)


